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Exu e Pombagira: Os guardiões da simplicidade e do pé no chão.

Foto do escritor: Luz de Aruanda
Luz de Aruanda
28 de ago.
10 min de leitura

Atualizado: 2 de set.


A Umbanda é, em sua gênese histórica e espiritual, uma religião de solo sagrado, baseada na simplicidade, na fé, no amor, no acolhimento e na caridade pura. Ela é o espaço onde o invisível toca o visível para curar as dores da alma. No entanto, poucas linhas de trabalho sofrem tanto com as projeções do ego e da vaidade humana quanto a chamada Linha da Esquerda, composta por Exus e Pombagiras.

Para compreender a verdadeira atuação dessas entidades, é preciso despir-se dos excessos materiais e compreender o conceito de magnetismo e força coletiva. Para que a espiritualidade atue de forma plena em um Terreiro, existe um motor invisível fundamental: a egrégora. (Cientificamente e teoricamente falando, egrégora é um campo de força ou uma atmosfera espiritual criada a partir da soma dos pensamentos, sentimentos, desejos e frentes energéticas de um grupo de pessoas reunidas com o mesmo propósito.) Egrégora, é como uma teia, um conjunto astral circular de pensamentos e energia, onde todos que comungam do mesmo pensamento estão conectados.

O Exu, é compreendido até mesmo pelos pais do culto de Nação, como o braço direito de Deus na Terra. Ao meu entender, as Pombagiras, representam esta mesma assertiva, em uma vibração energética, também ligada a amor, afeto e solução de problemas no campo dos relacionamentos e na parte material dos trabalhos terrestres que trazem o sustento aos encarnados.

Quando o corpo de médiuns, a assistência e os cambones se unem em profunda concentração, respeito e amor, eles geram uma egrégora de luz. É essa energia coletiva acumulada no ambiente que serve como a verdadeira matéria-prima e "combustível" para que os guias espirituais possam realizar limpezas profundas, desobsessões e curas. A força de um Terreiro não reside nos seus adereços, mas na qualidade da egrégora que ele sustenta.

Quando observamos o verdadeiro Exu e a verdadeira Pombagira de trabalho sob a ótica da caridade, o que encontramos é a pura simplicidade. Eles são guias de luz, trabalhadores da lei divina e da justiça, que conhecem profundamente as misérias e as virtudes humanas por já terem vivido na Terra.

O verdadeiro Exu da Umbanda atua de forma firme e acolhedora. Ele se apresenta descalço, com o pé tocando a terra do Terreiro, utilizando uma roupagem simples de trabalho, o fumo de seu charuto e o marafo estritamente como ferramentas magnéticas para desintegrar miasmas densos e quebrar feitiços.




Da mesma forma, a verdadeira Pombagira da Umbanda personifica o acolhimento e a quebra de amarras emocionais. Ela não precisa de panos nobres para manifestar seu axé; sua saia de chita ou algodão simples, sua rosa comum e sua gargalhada sincera são as ferramentas mais potentes para limpar o campo astral do consulente, trazendo de volta a autoestima, o discernimento e o equilíbrio.

Sejamos realistas: um guia de luz para trabalhar através da incorporação no médium, dentro do Terreiro, não necessita de itens materiais de luxo, para correr gira ou ministrar o passe.  Ele pode usar um copo de água, o sal, o açúcar, um pouco do seu marafo e do fumo nos trabalhos. Alguns usam suas capas para o passe também. Não é a vestimenta cara, nem a joia, nem a bijuteria de luxo, que trará o axé. Não é o colar brilhante imenso nem o chapéu que chama demais a atenção, que influenciará na energia do passe.

Em contrapartida à beleza da simplicidade, muitas pessoas e Terreiros deixam-se seduzir pelo que podemos chamar de "A Pombagira ou o Exu da Ilusão". Trata-se da personificação de entidades cobertas de joias pesadas, coroas de pedrarias, anéis em todos os dedos, mantos de veludo bordados a ouro e a exigência de montanhas de bebidas caríssimas e presentes extravagantes.

No campo puramente espiritual, esses excessos materiais não possuem qualquer efeito prático ou utilidade. Espíritos de luz, que já transcenderam a matéria, não se alimentam do valor monetário de um objeto, tampouco ganham poder por usarem coroas físicas. O magnetismo espiritual lida com a pureza dos elementos da natureza e com a intenção do coração.

O grande problema dessa ostentação é o ilusionismo que ela provoca nos consulentes. Quando um Terreiro foca o atendimento na riqueza visual das entidades, o consulente é induzido a acreditar que o poder do espírito está atrelado ao luxo e ao valor do que lhe é oferecido. Isso afasta o ser humano do verdadeiro sentido da fé e cria uma dependência de barganha espiritual, onde pensa-se que "quem dá o presente mais caro recebe a maior graça". Essa dinâmica alimenta a vaidade dos médiuns e a incompreensão dos frequentadores, distorcendo o ensinamento básico de que a espiritualidade superior atua por merecimento e amor, nunca por comércio.

Exu e Pombagira são o ponto de força que limpa as nossas estradas e desata os nós mais apertados de nossas vidas. Eles encontram sua maior fortaleza não no brilho do ouro ou no requinte dos altares, mas no brilho de uma egrégora bem firmada e concentrada na caridade. Entender que os guias de luz não precisam de luxo é o primeiro passo para resgatar a Umbanda pura, aquela que acolhe a todos com o mesmo amor, provando que o maior tesouro de um espírito é, e sempre será, a sua capacidade de praticar o bem de forma humilde e desinteressada.

Dentro das leis espirituais da Umbanda e dos princípios cármicos do Espiritismo, a liderança de um Terreiro confere ao Pai ou Mãe de Santo uma responsabilidade gigantesca. O dirigente não é apenas um administrador; ele é um farol e um canalizador de energias.

Quando um dirigente fomenta, permite ou ostenta esse luxo exacerbado e vende uma imagem equivocada dos Guias de Esquerda, ele assume graves riscos espirituais e débitos cármicos, que podem ser divididos em quatro grandes pilares:

1. Afinidade Magnética com Falanges de Baixa Vibração (Misticismo e Fascinação)

O princípio básico da espiritualidade é a Lei da Afinidade e Atração. Os espíritos de luz se aproximam pela pureza de propósito, simplicidade e amor. Ao transformar a gira de Exu e Pombagira em um "desfile de modas" ou em um espetáculo de vaidade, o dirigente altera o padrão vibratório da casa.

O Risco: Espíritos zombeteiros, mistificadores ou obsessores (conhecidos no Espiritismo por sua capacidade de fascinar e enganar) aproveitam-se desse ambiente de vaidade. Eles começam a se passar por Exus e Pombagiras de forma teatral, alimentando o ego do médium e do dirigente apenas para sugar a energia (ectoplasma) ali gerada. O Terreiro deixa de ser um hospital espiritual e torna-se um centro de fascinação, uma das piores formas de obsessão coletiva.

2. Criação de Débitos Cármicos por Desvirtuamento do Próximo

Tanto o Espiritismo quanto a Umbanda, bebem na fonte dos ensinamentos de Jesus. Há uma máxima evangélica que diz: "Ai daquele por quem vem o escândalo" ou "A quem muito foi dado, muito será cobrado".

O Risco: Quando um consulente — muitas vezes fragilizado, desesperado e sem instrução espiritual — chega ao Terreiro e vê uma entidade coberta de ouro exigindo champanhes caríssimas, ele aprende que a espiritualidade se move por interesse material. Se esse consulente se afastar da fé ou se endividar para fazer agrados financeiros a um espírito, a responsabilidade cármica desse desvio é do dirigente. O Pai ou Mãe de Santo contrai uma dívida espiritual severa por ter sido o causador da cegueira espiritual de outrem.

3. A Lei do Retorno e a Cobrança dos Verdadeiros Guardiões

Os Exus e Pombagiras de Lei são executores da Justiça Divina. Eles não toleram o uso de seus nomes sagrados para a exploração da vaidade humana ou para a mentira.

O Risco: O dirigente que usa o nome de uma Pombagira ou de um Exu para inflar seu próprio status social ou financeiro, atrai a severidade da Lei de Causa e Efeito. Os verdadeiros guardiões retiram a sua proteção daquela casa. Sem a proteção da verdadeira Esquerda, o Terreiro fica vulnerável a ataques de magias densas e cobranças espirituais externas. O dirigente e seus médiuns começam a experimentar derrocadas em suas vidas pessoais, profissionais e de saúde, fruto do enfraquecimento de suas defesas espirituais.

4. Perda do "Crédito Espiritual" e o Resgate no Plano Astral

No Espiritismo (conforme as obras de Allan Kardec e André Luiz), aprendemos que o nosso verdadeiro patrimônio é o bem que fazemos na Terra. O trabalho no Terreiro gera "bônus-hora" ou créditos espirituais de cura e proteção para o próprio médium.

O Risco: Ao mercantilizar ou transformar a caridade em vaidade ostensiva, o dirigente zera os seus créditos espirituais. Quando ocorrer o seu desencarne (morte física), ele não encontrará nos planos superiores as "riquezas" que ostentou na Terra. Pelo contrário, o choque de realidade no plano espiritual (Mundo Espiritual) costuma ser doloroso: muitos dirigentes descobrem que, por trás do luxo que exibiam, restou apenas um vazio de virtudes reais, necessitando de longos e penosos processos de reencarnação e resgate para limpar as manchas causadas pela vaidade e pelo orgulho à frente de uma comunidade.

Em breve síntese, o luxo na Umbanda é o amor; a joia mais preciosa de uma Pombagira é a regeneração de um consulente; e a maior coroa de um Exu é ver os caminhos de um filho de fé abertos com honestidade. O dirigente que troca essa riqueza imaterial pelo brilho falso do ilusionismo assina, perante as Leis Divinas, um termo de falência espiritual.

Em O Livro dos Médiuns, Allan Kardec dedica capítulos inteiros para alertar sobre os perigos morais da mediunidade e o perfil dos espíritos que se aproveitam do orgulho humano. Duas passagens fundamentais ilustram perfeitamente o risco corrido por dirigentes que transformam o Terreiro em um espetáculo de vaidade e ostentação.

1. A Perda do Dom e o Afastamento dos Bons Espíritos

No Capítulo XXVI (item 304), ao tratar da Mediunidade Gratuita (princípio que dialoga diretamente com a caridade na Umbanda), Kardec questiona os espíritos sobre aqueles que transformam a mediunidade em comércio ou em um meio de alcançar interesses materiais e status. A resposta dos Espíritos Superiores é taxativa:

"A mediunidade é uma coisa santa, que deve ser praticada santamente, religiosamente... Os Espíritos levarão em conta o seu devotamento e os seus sacrifícios, enquanto se afastarão dos que pretendem fazer da mediunidade um meio de subir na vida." 

A aplicação no Terreiro: O uso da mediunidade para ostentação ou ganho de ego desonra a caridade, resultando no afastamento dos guias de luz.

2. A Fascinação: O Pior Tipo de Obsessão

No Capítulo XXIII, Kardec descreve a Fascinação (item 239) como uma ilusão que paralisa o julgamento. Os textos completos sobre a fascinação e as advertências do Capítulo XXXI (item 27) podem ser consultados diretamente nas referências.

A aplicação no Terreiro: O dirigente fascinado pelo orgulho perde o senso crítico, confundindo entidades exigentes com guias de luz, quando na verdade servem a espíritos mistificadores que exploram a vaidade e drenam a energia da casa.

As leis espirituais deixam claro: o orgulho é a porta de entrada para a queda espiritual.

O conceito de ectoplasma (ou fluido vital) traz uma explicação profunda, quase cirúrgica, sobre as consequências científicas e ocultas da vaidade dentro de um Terreiro.

Para a Doutrina Espírita e para as correntes científicas da Umbanda, o ectoplasma é a substância semimaterial, de natureza psicofísica, que é gerada e expelida pelo corpo dos médiuns. Ele é o elemento maleável que os espíritos utilizam para interagir com a matéria, realizar limpezas astrais, desintegrar miasmas de doenças e cortar feitiços densos.

Quando relacionamos o ectoplasma com o comportamento de dirigentes que ostentam um luxo exacerbado e transformam giras de Exu e Pombagira em espetáculos teatrais, o risco espiritual atinge o nível da vampirização energética. A dinâmica funciona da seguinte forma:

1. O Pensamento como Direcionador do Ectoplasma

Nas obras do espírito André Luiz, em especial Nos Domínios da Mediunidade, explica-se que o ectoplasma está intimamente ligado e subordinado aos pensamentos e ao padrão moral do médium e do ambiente.

·  Em uma gira reta e humilde: A mente dos médiuns está sintonizada no amor e na caridade. O ectoplasma liberado é sutil, limpo e luminoso, ideal para que os guias de luz o utilizem na cura e proteção.

·  Na gira do espetáculo e da vaidade: Quando o foco se torna as joias, as roupas pesadas, as coroas e a exibição de poder, as mentes ali reunidas entram em um padrão vibratório baixo de orgulho, cobiça e fascinação. O ectoplasma liberado nesse estado torna-se denso, impuro e magnetizado pelo ego.

2. A Atração de Espíritos Parasitas (Vampirismo Astral)

Os espíritos de luz, guias e guardiões autênticos da Umbanda rejeitam o ectoplasma contaminado pelo orgulho e pela ostentação, pois eles não operam nessa faixa vibratória. No entanto, essa energia semimaterial densa é altamente cobiçada por entidades inferiores, conhecidas no Espiritismo como obsessores, zombeteiros, kiumbas ou espíritos parasitas.

·  O Processo: Esses espíritos, fascinados pelas sensações da matéria, sentem o odor e a densidade desse ectoplasma adoecido pela vaidade e são atraídos em massa para o Terreiro. Para continuar recebendo e se alimentando desse "combustível" fluídico, eles passam a alimentar o teatro. Apresentam-se fingindo ser os "Exus Reis" ou as "Pombagiras Rainhas" mais ricas e extravagantes, estimulando o dirigente e os médiuns a exigirem mais roupas luxuosas, mais anéis e bebidas caras.

3. O Esgotamento Vital do Corpo Mediúnico

O maior perigo para os médiuns e para o Pai ou Mãe de Santo reside no uso predatório de suas forças vitais. Quando os espíritos mistificadores e obsessores assumem o comando através do ilusionismo do luxo, eles não têm compromisso com a integridade física ou espiritual dos encarnados.

A Consequência: Eles passam a vampirizar (sugar) o ectoplasma de forma descontrolada para manter suas falsas formas plasmadas e seus prazeres astrais. Como consequência dessa drenagem fluídica nociva, o dirigente e o corpo de médiuns começam a apresentar sintomas severos no corpo físico: fadiga extrema crônica, crises de ansiedade na rotina, dores inexplicáveis no corpo, desequilíbrio emocional e enfraquecimento da saúde física, já que o fluido vital (ectoplasma) essencial para a sustentação biológica deles está sendo roubado para sustentar uma ilusão vaidosa.

4. A precificação do passe e a comercialização dos atendimentos da Esquerda

A cobrança financeira pelos atendimentos da Esquerda representa o ápice da falência moral e o mais devastador gatilho de ruína espiritual para um dirigente. A máxima de Jesus, "Dai de graça o que de graça recebestes", reafirmada por Allan Kardec no Livro dos Médiuns, é uma lei inviolável: a mediunidade é um dom divino destinado exclusivamente à caridade, e não uma mercadoria. Quando um terreiro precifica passes, consultas ou trabalhos de Exu e Pombagira, ocorre uma quebra imediata de sintonia com as falanges de luz, que jamais aceitam o comércio do sagrado. O verdadeiro Exu e a verdadeira Pombagira se retiram da casa na mesma hora. Em seus lugares, atraídos pela vibração da ganância, instalam-se kiumbas, obsessores e espíritos mercenários do astral inferior, que passam a simular os guias para manter o fluxo de dinheiro.

Consequência: Sob a ótica da Lei do Retorno (Causa e Efeito), o dirigente que cobra pelos trabalhos assume o carma direto de cada ilusão vendida e de cada consulente lesado. No plano energético, o ectoplasma da casa é totalmente contaminado pelas energias densas do interesse material e da manipulação, transformando o terreiro em um centro de vampirização fluídica. Ao desencarnar, esse dirigente responderá perante os tribunais divinos por crime de estelionato espiritual, descobrindo que trocou sua evolução e sua proteção por moedas terrenas que não têm valor algum no mundo dos espíritos.

O luxo na Umbanda é um veneno que altera a química fluídica do Terreiro. O chapéu e roupa que ostentam excessivamente, a coroa de pedras e as joias pesadas servem apenas como iscas no plano físico que geram a liberação de um ectoplasma doente e orgulhoso. O dirigente que vende essa imagem de vaidade abre voluntariamente as portas de sua casa espiritual para que ela deixe de ser um pronto-socorro da espiritualidade superior e se transforme em um verdadeiro pasto magnético para entidades vampirizadoras. Na verdadeira caridade, o ectoplasma é moldado pelo amor e pela simplicidade — os únicos adereços que o dinheiro não compra e que os obsessores não conseguem tocar.

Agora é contigo e com o seu livre arbítrio. Se continuará convivendo com pessoas e local que tem este tipo de energia ou não, seja qual for a sua escolha, abrace firme as respectivas consequências. Axé!

Autora: Walkyria Ribeiro.

 
 
 

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